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Quarta-feira, 25 de Fevereiro 2026

Política

CPI interpela Meta sobre ganhos da gigante tecnológica com crimes online

Representante da Meta, responsável por Instagram e WhatsApp, não consegue esclarecer capacidade da empresa para detectar e prevenir a disseminação de pornografia infantil.

Nicolaite
Por Nicolaite
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CPI interpela Meta sobre ganhos da gigante tecnológica com crimes online
© Marcello Casal jr/Agência Brasil
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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado, focada no Crime Organizado, interpelou nesta terça-feira (24) a Meta, conglomerado que detém plataformas como WhatsApp, Facebook e Instagram, a respeito dos benefícios financeiros supostamente obtidos pela gigante tecnológica estadunidense com atividades criminosas em suas redes.

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI, enfatizou que os lucros provenientes de anúncios fraudulentos e golpes virtuais geram bilhões de dólares em receita, um montante que, segundo ele, encorajaria a permanência desses materiais nas plataformas.

“Tudo indica que a Meta tem dificultado intencionalmente a atuação das autoridades, pois, ao criptografar conteúdo de forma inadvertida, mesmo com relatórios internos apontando que essa criptografia favoreceria o crime, a empresa prosseguiu”, declarou o relator.

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A criptografia de ponta a ponta é o mecanismo que assegura a privacidade das conversas no WhatsApp, Messenger e Instagram, impedindo que terceiros acessem o conteúdo dessas interações privadas.

Presente à sessão, Yana Dumaresq Sobral Alves, diretora de políticas econômicas para a América Latina da bigtech, refutou veementemente a ideia de que a empresa tenha qualquer interesse financeiro na veiculação de anúncios de fraudes e golpes.

“[Temos] o interesse de manter nossas plataformas distantes de agentes mal-intencionados e de conteúdos fraudulentos; afirmar que isso não está em consonância com nossos interesses comerciais, ou seja, tê-los e abrigá-los em nossas plataformas. Por essa razão, adotamos medidas rigorosas, proativas e em tempo real para detectar e bloquear campanhas fraudulentas”, assegurou.

Para Vieira, a empresa pode agir dessa maneira porque minimiza o risco de ter que arcar com indenizações, visto que o sistema judiciário não consegue acessar conteúdos que prejudicaram vítimas, como as de exploração sexual, por exemplo.

O senador expressa a convicção de que a escolha da Meta em permitir a disseminação de conteúdo criminoso ocorre sem prejuízo à imagem da empresa, dada sua posição como uma gigante global sem concorrentes significativos.

“É um megamonopólio de comunicação, e, de fato, teremos que chegar a algum ponto de regulamentação aqui, por meio de lei. Temos divergências pontuais em relação a ajustes, a conteúdos, mas o fato é que enfrentamos um problema gravíssimo com esse avanço digital na sociedade”, ponderou.

A plataforma Meta é alvo de uma ação judicial nos Estados Unidos, sob a alegação de facilitar a exploração sexual de crianças e adolescentes e de promover conteúdos ilícitos para obter lucros. A gigante da tecnologia nega todas as acusações.

O uso de redes sociais para a exploração sexual não se restringe à Meta, afetando outras plataformas, como o X. Em janeiro deste ano, a União Europeia iniciou uma investigação sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) Grok, do X, para a criação de imagens sexualizadas de indivíduos reais, incluindo crianças e adolescentes.

Audiência no Senado

Na CPI do Crime Organizado no Senado brasileiro, o relator Alessandro Vieira havia solicitado a convocação de Conrado Leister, diretor-geral da Meta no Brasil, visando obter mais detalhes sobre reportagens da imprensa que apontavam para ganhos bilionários da bigtech com fraudes e crimes praticados na internet.

“Tais documentos indicam que a Meta obteve um faturamento de aproximadamente US$ 16 bilhões em 2024, proveniente da veiculação de anúncios de golpes e produtos proibidos. Este valor representaria cerca de 10% da receita anual total da companhia”, justificou o parlamentar sergipano.

Em substituição ao diretor-geral, a Meta enviou para a oitiva na CPI a diretora Yana Dumaresq Sobral Alves, que destacou os resultados da empresa, reconhecidos por autoridades de segurança pública e pelo Judiciário, no combate às fraudes online, “com decisões julgando improcedentes os pedidos de condenação por suposta omissão”.

Ainda conforme a diretora da Meta, as equipes da companhia desmantelaram quase 12 milhões de contas no Facebook, Instagram e WhatsApp associadas a centros criminosos de golpes, além de terem removido 134 milhões de anúncios fraudulentos em escala global em 2025.

“A confiança em nossas plataformas é uma condição absoluta para o sucesso de nossos negócios. Nosso objetivo é proteger usuários e empresas contra práticas enganosas”, concluiu.

Documentos internos vazados

O senador Vieira interrogou Yara sobre uma notícia da agência Reuters, de dezembro de 2025, que alegava que documentos internos da Meta orientavam os gestores da empresa a evitar regulamentações estatais que visavam derrubar anúncios de golpes na internet.

“Trabalho com esse tema dentro da empresa há mais de dois anos e meio, nunca vi nenhum documento, e não me lembro de ter visto nenhum documento que trouxesse esse tipo de interesse ou de abordagem”, respondeu Yara, diretora da Meta de política econômica para a América Latina.

Exploração sexual de crianças e adolescentes

O relator da CPI, Alessandro Vieira, também indagou se a Meta possui a capacidade de detectar e impedir a disseminação de imagens de abuso sexual infantil em suas redes sociais. O senador mencionou estudos que demonstram o uso das plataformas para o aliciamento de crianças.

“Em 2020, um relatório da ONG Human Trafficking Institute indicou que o Facebook foi a plataforma mais utilizada por traficantes sexuais para aliciar e recrutar crianças: 65% dos casos de aliciamento e recrutamento de crianças ocorreram através da plataforma de vocês”, salientou o senador.

A diretora da Meta, Yara Alves, não conseguiu responder com precisão se a companhia tem a capacidade de identificar conteúdos de pornografia infantil, prevenindo a divulgação desse tipo de material.

“Não sei explicar para o senhor se as nossas ferramentas de detecção proativa, a partir de metadados, etc., são suficientes para impedir a transferência de fotos, como o senhor falou especificamente, mas quero colocar aqui o time da Meta à disposição desta Comissão”, afirmou.

Simultaneamente, a representante da Meta destacou que o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes é uma prioridade máxima da multinacional, que implementou medidas para controle parental das contas de adolescentes.

“O tema de crianças e adolescentes dentro da Meta é um tema de altíssima prioridade e conta com diversos times dedicados na área de produto, na área de compliance, na área de jurídico, política pública, operações”, declarou.

Perguntas sem respostas

A diretora da gigante tecnológica também não conseguiu responder a questionamentos apresentados pelos senadores sobre tópicos específicos, como os limites da criptografia ou o uso de algoritmos nas redes sociais para favorecer determinados conteúdos políticos.

A insuficiência de respostas sobre alguns assuntos levou o relator da CPI a solicitar, novamente, a convocação do diretor-geral da Meta no Brasil, Conrado Leister.

“A empresa informou, ao pedir a substituição do diretor-geral por vossa excelência, que a senhora teria condições de atender perfeitamente [a CPI]. Novamente, em benefício desse princípio de boa-fé, que é tão bom nas relações, vamos entender que foi um erro de avaliação e vamos reiterar a convocação do diretor-geral”, concluiu o relator da Comissão.

FONTE/CRÉDITOS: Diangelis Nicolaite
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